domingo, 6 de agosto de 2017




Um Homem chamado Mohammah Baquaqua

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Um país construído pelas mãos de seres humanos escravizados não pode se dar ao luxo de esquecer sua memória racista, suas atrocidades sobre uma determinada etnia. A escravidão negra representa uma enorme mancha na história brasileira.

Historiadores debatem todos os anos sobre quantos escravos entraram no Brasil durante mais de 300 anos, uns falam em 10 milhões, outros em mais ou menos, mais o que realmente importa é demostrar um pouco do sofrimento de nossos ancestrais que foram retirados de suas terras, de suas culturas e de suas famílias, para serem trazidos a milhares de quilômetros de distância de sua terra natal para morrer como simples produtos.

Ao chegar a terra de Santa Cruz, os lusitanos tentaram escravizar os índios, porém os mesmos não aguentavam o nível de trabalho , pois a sua vida era baseada na subsistência e o uso de recursos naturais, um trabalho compulsório seria algo sacrificante e que eles jamais aguentariam , e isso se viu nos anos a seguir.

O negro tinha e tem um porte físico privilegiado, sua condição de vida extrema na África o transformava em um homem de porte físico avantajado e resistente, perfeito para o trabalho com a cana de açúcar.

O colonizador tinha pleno conhecimento da capacidade e da habilidade do negro, principalmente por sua rentável utilização na atividade açucareira nas ilhas do Atlântico. Muitos desses seres humanos proviam de reinos que trabalhavam com ferro e gado, então sua capacidade produtiva era bem superior a indígena.

Mas o negro jamais aceitou essa condição imposta. Já nos navios, a resistência já se mostrava. Casos de suicídio eram bem comuns , quando chegavam a terras tupiniquins , tentava de todas as maneiras empreenderem fugas, criavam Quilombos e se protegiam dos seus inimigos.

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Mais nesse artigo não vamos retratar sobre a escravidão no geral, mais sim de um homem que foi retirado de sua vida, escravizado, que conseguiu fugir e foi para terras americanas, mais ele tinha uma particularidade: Ele sabia ler e escrever e escreveu uma bibliografia, a única escrita por um ex-escravo, o único que deixou  o registro de seus sofrimento, seu nome era Baquaqua.

Nascido livre na Àfrica desfrutava de uma vida de liberdade, apesar do reino onde ele morava estar constantemente em guerra, mais essa era sua única preocupação. Mohammah Gardo Baquaqua nasceu no território hostil entre 1820 e 1830, no reino de Zooggoo na África Central, Reino tributário do reino de Bergoo, localidade chamada Djougou( atual Benim) e sua família era de origem muçulmana .

Filho de comerciantes,  estudou em uma escola de ensino islâmico , e como é tradicional da religião , adquiriu conhecimentos seculares que o ajudaria em sua vida, além de estudar o livro da religião( O Corão), teve acesso a ensinamentos de literatura e matemática.

Baquaqua se tornou um habilidoso comerciante e atuou entre o Caifado de Socoto e o extinto  império Ashante, reino esse que possuía um tráfico intenso de escravos.
(califado: Jurisdição  no direito muçulmano, conjunto de princípios seguidos por chefes políticos e religiosos após a morte de Maomé c570-632.Dignidade ou jurisdição ('poder') de califa.)
Mas essa profissão o levaria a sua desgraça pessoal. Como eu escrevi acima, a região vivia numa constante guerra, região bastante tensa, e um dia, enquanto ele vendia grãos, foi preso e feito de escravo.
Seu irmão acabou comprando ele e lhe devolvendo a liberdade, mas pouco tempo depois ele foi preso e feito de escravo novamente, pois ele tentou roubar e ingerir bebida  alcoólica , perto da sua cidade Dijougou, e essa atitude é considerado um pecado mortal pela religião Islâmica. Agora como escravo , foi vendido e enviado ao Brasil a bordo de um Tumbeiro ( Navio Negreiro ) , e ele descreve em sua bibliografia o terror desse navio:

“Que aqueles indivíduos humanitários, que são a favor da escravidão, coloquem-se no lugar do escravo no porão barulhento de um navio negreiro, apenas por uma viagem da África a América, sem sequer experimentarem mais que isso dos horrores da escravidão; se não saírem abolicionistas convictos, então não tenho mais nada a dizer a favor da abolição”. Mahommah G. Baquaqua, 1854.

Um relato de Baquaqua
“Escravos vindos de todas as partes do território estavam ali e foram embarcados. O primeiro barco alcançou o navio em segurança, apesar do vento forte e do mar agitado; o próximo a se aventurar, porém, emborcou e todos se afogaram, com exceção de um homem. Ao todo, trinta pessoas morreram”. (BAQUAQUA).

Dentro do Navio, uma imagem que seria marcada para toda vida.
“Fomos arremessados, nus, porão adentro, os homens apinhados de lado e as mulheres do outro. O porão era tão baixo que não podíamos ficar em pé, éramos obrigados a nos agachar ou a sentar no chão. Noite e dia eram iguais para nós, o sono nos sendo negado devido ao confinamento de nossos corpos. Ficamos desesperados com o sofrimento e a fadiga”.
“A única comida que tivemos durante a viagem foi milho velho cozido. Não posso dizer quanto tempo ficamos confinados assim, mas pareceu ser muito tempo. Sofríamos muito por falta de água, que nos era negada na medida das necessidades. Um quartilho por dia era tudo que nos permitiam e nada mais”.
“Quando qualquer um de nós se tornava rebelde, sua carne era cortada com uma faca e o corte esfregado com pimenta e vinagre para torná-lo pacifico (!)”.
“Alguns foram jogados ao mar antes que o último suspiro exalasse de seus corpos quando supunham que alguém não iria sobreviver, eram assim que se livravam dele”.

Baquaqua depois de cerca de 30 dias de viagem nestas péssimas condições, acabou chegando à província de Pernambuco no Império do Brasil por volta de 1845. Cinco anos depois, o imperador D. Pedro II, declararia o fim do tráfico de escravos no Atlântico, ou seja, ele chega na condição de escravo ilegal , isso só reforça a ideia que o tráfico de escravos continuou mesmo depois de sua proibição , o mercado negro continuava intenso.

 Baquaqua permaneceu em um mercado de escravos na costa, por um ou dois dias, até ser vendido para um mercador que por sua vez o vendera em um mercado na cidade do Recife. Lá um padeiro o comprou. Este vivia no interior, mas Baquaqua não especifica onde exatamente, ele apenas disse que não ficava distante de Pernambuco.



Terminada a construção da casa, Baquaqua passou a trabalhar como vendedor de pão. Era o responsável por vender o pão de porta em porta ou às vezes ficava na padaria mesmo. Mas quando não conseguia vender tudo, às vezes era chicoteado para aprender a vender tudo na próxima vez. Ele também relata que os outros escravos eram dados a indisciplina e eram beberrões. Gastavam o pouco dinheiro que conseguiam comprando cachaça. Logo, o próprio Baquaqua acabou se juntando aos seus amigos.

“Assim, um dia, quando me mandaram vender pão como de costume, vendi apenas uma pequena quantia e, com o dinheiro que recebi comprei uísque e bebi a vontade, voltando para casa bastante embriagado. Quando fui fazer as contas da diária, meu senhor pegou minha cesta e, descobrindo o estado em que as coisas estavam, fui muito severamente espancado. Eu disse a ele que não deveria mais me açoitar e fiquei com tanta raiva que me veio a ideia de matá-lo e, em seguida, suicidar-me”. (BAQUAQUA).

Baquaqua passou a entrar no vício do álcool por que considerava uma forma de atenuar a dura e miserável vida de escravo que levava. Quando era muçulmano, não podia beber porque a religião islâmica proíbe os fiéis o consumo de bebidas alcoólicas, mas agora que era cristão, isso não era proibido totalmente. (no cristianismo condena-se a embriaguez como um estado derivado do ato do pecado da gula, nesse caso, beber em demasia).

Após ter sido espancado pelo seu senhor, ele foi liberado. Ainda com dor e pulsante de raiva, Baquaqua disse que naquele momento tentou cometer suicídio. Ele correu até o rio ali perto e se jogou em suas águas, porém algumas pessoas que estavam num barco viram que ele se afogava e o salvaram. Depois disso ele não tentou se afogar novamente.

Depois de toda esta rebeldia o padeiro o levou para a cidade e o vendeu para um mercador de escravos. Baquaqua passou alguns dias em posse desse mercador até ser vendido para um fazendeiro, o qual ele dizia ser muito cruel. No dia que fora comprado, o fazendeiro também comprou duas mulheres, sendo uma jovem e bonita, essa serviria como concubina para o fazendeiro. Ele passou algumas semanas trabalhando para o fazendeiro até que o mesmo o vendeu para um navio negreiro que seguia para o Rio de Janeiro. Lá, ele passou duas semanas, até ser vendido a um capitão de navio.
Baquaqua relata que este capitão até foi mais condizente com ele, e não o maltratava tanto, porém sua esposa,era uma mulher cruel. Enquanto trabalhava no navio logo fora reconhecido por seu esforço e foi promovido  segundo camareiro. Pouco tempo depois ele se tornou o primeiro camareiro.

“Fiz tudo que estava em meu alcance para agradar meu senhor, o capitão, e ele, por sua vez, depositou confiança em mim”. (BAQUAQUA)

Ele passou um bom tempo trabalhando naquele navio. Até que um dia, o seu capitão foi incumbido por um mercador inglês de transportar em seu navio algumas sacas de café para Nova Iorque. Baquaqua e outros escravos seguiriam viagem para os Estados Unidos.
“Tínhamos aprendido que em Nova Iorque não havia escravidão, que era um país livre e que, uma vez ali, nada tínhamos a temer de nossos cruéis senhores e estávamos muito ansiosos para chegar lá”. (BAQUAQUA).

Baquaqua na época desconhecia o fato de que nos Estados Unidos havia escravidão, mas esta era mais intensa e agressiva nos estados do sul. Em Nova Iorque havia escravidão, mas de forma mais moderada. A abolição nos Estados Unidos foi apenas decretada em 1865 pelo presidente Abraham Lincoln, após o término da Guerra Civil Americana (1861-1865).
Abordo do navio inglês ele conheceu um marinheiro que falava um pouco de inglês. A primeira palavra em inglês que Baquaqua e seus amigos aprenderam foi free (livre). À medida que atravessavam o Atlântico rumo ao norte, Baquaqua dizia que a cada dia que se passava que estava chegando mais próximo de Nova Iorque, já se sentia um homem livre.

“Aquela foi à época mais feliz da minha vida, mesmo agora meu coração palpita com jubiloso deleite quando penso naquela viagem, e creio que Deus todo misericordioso tudo ordenou para o meu bem; como me sentia grato”. (BAQUAQUA).

Mas antes de Baquaqua chegar em seu destino este ainda viria a sofrer durante a viagem. Num dia de vento forte, Baquaqua acabou não ajudando de forma correta os outros escravos, isso enfureceu o capitão do navio o qual o chicoteou severamente. Naquele momento ele disse para que o capitão o matasse de vez, mas o capitão não fizera isso. Baquaqua disse que não iria implorar por misericórdia e assim apanhou severamente. Ele conta que suas costas e braços ficaram com marcas profundas, dilacerações causadas pela surra que levou. “embora estivesse machucado e despedaçado, meu coração não estava subjugado”.

Dias depois eles chegaram ao porto de Nova Iorque, em seu relato ele conta que foi bem recebido pelos americanos. Depois de alguns dias trabalhando, Baquaqua fez menção em dizer ao seu dono que não queria voltar mais ao Brasil, que ficaria ali e seria um homem livre. O capitão indignado com ele, ordenou que três escravos o capturassem, e assim Baquaqua passou alguns dias preso no navio, até que num dia foi solto, e o capitão concordou em lhe conceder a liberdade. Baquaqua desceu do navio alegre, mas fora capturado por um guarda do porto, o qual achara que ele tentava fugir. Ele passou uma noite trancafiado na prisão, até que o seu dono fora libertá-lo e o levou de volta ao navio. Isso havia sido no sábado e na segunda-feira, a liberdade chegou.

Baquaqua conta que três carruagens pararam no porto e homens bem vestidos subiram a bordo do navio, lá, estes obrigaram o capitão a baixar a bandeira e a libertar os escravos que trazia consigo, o capitão relutou em aceitar tais condições, mas acabou concordando.
“Fomos posteriormente, levados em suas carruagens, acompanhados pelo capitão, a um prédio muito bonito com um pórtico esplêndido de mármore, era circundada por uma elegante grade de ferro, tendo portões em diversos lugares, ornamentada ao redor com árvores e arbustos de vários tipos”. (BAQUAQUA).

Tal lugar era a prefeitura de Nova Iorque, lá eles foram conduzidos até a presença do cônsul do Brasil. O cônsul lhes questionou se queriam voltar para o Brasil, uma escrava disse que queria voltar, Baquaqua e outros disseram que não iriam voltar. Após várias perguntas, os escravos foram conduzidos para alojamentos que mais pareciam uma prisão. Baquaqua disse que temia que o cônsul não concordasse com eles e os levaria a força de volta para o Brasil.

Porém, depois de algumas noites, alguém acabou libertando os escravos, eles fugiram e seguiram viagem para a cidade de Boston em Massachussetts. Baquaqua não diz o nome destas pessoas, mas diz que eram amigos interessados em libertá-los. Ele permaneceu cerca de um mês em Boston, até que ganhou a possibilidade de viajar mais uma vez, ofereceram a oportunidade de ir para a Inglaterra ou para o Haiti. Baquaqua escolheu ir para o Haiti, pois acreditava que o clima de lá fosse parecido com o da sua terra.

No Haiti ele residiu por dois anos na cidade de Porto Príncipe, já sendo um homem livre. Lá ele passou a ser protegido e a trabalhar para a Sociedade Missionária Batista Livre. Baquaqua foi educado para se tornar um missionário cristão e possivelmente viajar para a África para converter mais devotos. Contudo ele não se tornou missionário e no ano seguinte em 1849, voltou para Nova Iorque onde ingressou no Colégio Central de Nova York. Ele permaneceu no colégio até o ano de 1853, mas não se sabe se chegou a se formar.

Entre 1853 e 1854 ele se mudou para o Canadá, lá conheceu Samuel Moore, o qual se interessou por sua história e decidiu escrever sua biografia. Pelo fato de não saber falar francês e inglês fluentemente, ele narrou a maior parte de sua história em português. Assim, Moore a traduziu e a publicou em 1854, sob o título de A Biografia de Mahommah G. Baquaqua, um nativo de Zoogoo, do interior da África.

A obra foi publicada em Detroit em língua inglesa, logo se tornou um livro conhecido, mas não fizera tanto impacto como foi o livro de Equiano, já que na época de Baquaqua a escravidão e o tráfico nos estados do norte dos Estados Unidos e no Canadá praticamente não existiam. Depois disso ele viajou para a Inglaterra em 1855, e de lá não se conhece mais nada a respeito de sua vida. Acredita-se que tenha morrido em 1857, porém ainda é uma data questionada.


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Bibliografia










terça-feira, 11 de julho de 2017

O Bairro estilo americano chamado Bráz de Pina.

O subúrbio carioca é renegado pela história, conhecemos bastante sobre Copacabana, Centro e São Cristóvão, mais por que deixar de fora todo o mecanismo que sustentava essa cidade antiga? Por que esquecer a história da zona rural da cidade?
A nossa cidade se resumia a uma pequena porção de aglomerados de casas que chegava no máximo até São Cristóvão ( isso até o fim do Império) os bairros que hoje está a zona norte e oeste não passavam de gigantes fazendas e chácaras que abasteciam a cidade urbana com todos os tipos de produtos. Mas por que renegar essa história? Será que a zona rural não teve importância nenhuma, ou preferimos contar apenas a história dos poderosos e ricos?

“... as cidades são virtualmente, se não de fato, simples dependentes delas. (zona rural)...”
                                            (Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, pag.73)

Sim, de fato, nossas cidades eram totalmente dependentes da produção de sua zona rural, a aceleração de seu crescimento veio apenas no pós- república, antes disso, sua sobrevivência dependia apenas do que a chácaras produziam.

Essas fazendas e chácaras pertenciam a grandes homens que na colônia e no império dominaram o cenário político e econômico de nossa cidade, famílias que influenciaram e que até hoje deixa raízes bem profundas em nossa sociedade.
Hoje vou contar um pouco sobre o comerciante BRÀZ DE PINA, homem de sucesso e principal responsável pela construção do cais dos Mineiros, vamos viajar um pouco num Brasil colonial e numa época que  o subúrbio não passava de campos verdes, praias desertas e plantações de café e cana até chegarmos nos tempos atuais e notar o que de mais importante existe em Bráz de Pina.

Bráz de Pina: O homem
Mas por que um homem iria merecer uma homenagem tão importante, um bairro com seu nome? Qual foi sua contribuição para a história carioca?

Visconde de Bráz de Pina, filho de Manoel da Silva Pina e Gracia Rodrigues. Casou-se com Luiza Bernarda Caetana do Rego, uma das suas primeiras propriedades foi uma fábrica para queimar gordura de baleia em Búzios fundada em 1749(Jornal À Pátria 1860).

O comércio de óleo de baleia, em tempos de colônia e império, era extremamente lucrativo e a família Pina viu ali uma oportunidade de crescimento e começou a expandir os negócios. Além da fábrica de queima de gordura, adquiriu terras na zona rural da cidade, uma fazenda que ficava as margens da Baía de Guanabara, local que se limitava a uma estrada de ligação com Irajá (Quitungo), a fazenda dos Cordovil e os territórios da Penha.

Bráz de Pina comercializada tudo que poderia usar da baleia, mais principalmente seu óleo, pois era usado para iluminar toda a cidade do Rio. Mas transformar para o produto era necessário levar a carcaça até búzios (em alguns casos) para que lá fosse feito toda a produção necessária para venda, mas um homem como Bráz de Pina não poderia perder tanto dinheiro assim, então ele teve ideia de construir um Cais mais perto e no local de venda de seus produtos. Foi então que ele investiu e construiu o antigo Cais dos Mineiros, sim caros leitores, Bráz de Pina mandou construir o cais dos mineiros.  O interessante é saber que antes, a região do cais era chamada Praia de Bráz de Pina.
Segundo a revista Marítima do Brasil, Bráz de Pina obteve a primeira concessão para a industrialização de pesca de Baleia na Baía de Guanabara, sendo que sua primeira armação ficava na praia de Bráz de Pina, onde seria construído o Cais dos Mineiros.

Pouco ainda se tem sobre o homem, sabemos apenas que o contrato de comércio acabou em 1765 e que esse mesmo foi arrebatado por um homem chamado Pedro Quintela que assumiu inclusive sua fazenda na zona rural. Não se tem uma data precisa da morte de Bráz de Pina, existiram descendentes até o início do século XX, inclusive um desses foi velado dentro da capela de Lobo Junior, em sua chácara, onde hoje é o parque Ary Barroso.

As Terras e suas características - Ontem!
Para imaginar como era Bráz de Pina, vou escrever uma série de reportagens de jornais da época que nos mostra as características dessa terra fértil banhada pelo mar. Essa mesma terra que antes era habitada pelos índios Tamoios.

“... Aviso: Quem quiser comprar um sítio, vizinho ao mar, em terras de Braz de Pina, freguesia de Irajá, toda cercada por espinhos, com casa de telha, plantação de  mandioca, de capim, mata fechada , água para beber...” (Gazeta do Rio 1815)
“...Quem quiser comprar um sítio com casas de telha, plantação de café, pasto para animais, com um rio dentro da propriedade( provavelmente o Arapogi), procurar no portinho, junto a propriedade de Bráz de Pina o dono Fernando Luiz Barreto...”            (Diário do Rio, 12 de novembro de 1837).

Bráz de Pina, como podemos observar, tinha características de fazendas do interior do país, não era a toa que aqui era a zona rural da cidade, tinha plantações, gado, um rio que passava no meio da propriedade e que era provavelmente usado para abastecer de água o local, claro que não podemos esquecer-nos de citar os milhares de escravos que trabalhavam ali, como se é registrado nas reportagens da “Gazeta suburbana” de 1880 e o mais interessante: era a beira mar.
A famosa praia da Moreninha, que os mais antigos sempre se lembram dela com saudade e que  também banhava o bairro, ela começava em Cordovil e só terminava na Penha, na altura do que hoje é a faculdade Castelo Branco, onde um pedaço dela era de propriedade particular do famoso Lobo Junior.

As terras já passaram pelas mãos do fazendeiro José Maria Esteves, que nos anos de 1860 ofereceu um pedaço das terras para a construção do matadouro da cidade, dos mesmos maldes que do matadouro da Penha, a beira do mar e perto do porto. José Maria tem registro de sua existência no Almanak Administrativo mercantil e industrial do Rio de Janeiro.

Outro assunto importante a ser abordado seria um dos mistérios que cercam os conjuntos da Guaporé.
Conjunto esse construído nos anos 60 para recepcionar as pessoas que foram arrancadas de suas casas de favelas da zona sul, o local da construção desses conjuntos abrigava um convento jesuíta, onde ali existia tuneis que ligava o convento a outras áreas como o arraial da Penha e a igreja de Irajá, existia também a capela de Nossa Senhora da Conceição , segundo fontes esses túneis foram inundados pelas chuvas, mais existem até os dias atuais. Antes da inundação desses tuneis, os colonizadores da região usavam eles para guardar os vinhos para consumo.

A divisa entre as terras de Bráz de Pina e os Cordovis era o Rio Irajá e as fazendas eram cortadas também por uma estrada que as ligava á freguesia do Irajá, estrada essa que existe até hoje e serve como divisa ainda para os dois bairros: a estrada do Quitungo que terminava a beira- mar (pressupõe-se que ela seguia onde hoje é a Avenida SHULTZ WENK).

Onde hoje é a Rua Antenor Navarro, que recebeu esse nome em 1933, no seu final existia um casarão de José Felipe Gama, onde existia um pequeno porto e um armazém e esse local era chamado de Porto do Gama (atualmente é uma ponte no rio Irajá que a população chama de “ponte do gama”) esse armazém pertencia as terras do engenho de cordovil.

O engenho de Bráz de Pina ao longo do tempo teve vários donos, como por exemplo, o espanhol filantropo Manuel Cavanelas e o bispo Castelo Branco de Inhaúma.

O século das transformações: Bráz de Pina se torna um bairro

O progresso chegou junto com ele à destruição em massa das belezas de nossa zona rural. Durante esse processo, grandes belezas naturais e físicas foram apagadas da existência. Mas o Brasil estava em crescimento, o Rio Precisava se enquadrar no novo sistema de vida, deveria se enquadrar ao capitalismo, e o primeiro sinal desse progresso foi o trem.

Inaugurada em 1886, a estação no seu início era feita de madeira e ficava em frente a rua santo Antônio , hoje rua Oricá na antiga Vila Guanabara e hoje serve a Supervia. O trem foi um dos responsáveis de ocupação em massa do que viria a ser o subúrbio, pois era de interesse do novo governo republicano tirara classe mais baixa do centro econômico e da onde seria a moradia da burguesia e habitar essas regiões ainda em crescimento e sem estrutura nenhuma. Essa massa da população iria usar o trem como principal meio de transporte para chegar ao centro econômico. Então, entre os anos de 1914 e 1918, foi o intensificado esse processo de “imigração” do centro para o subúrbio.

Devido a esse grande êxodo em direção a zona rural, que uma companhia resolveu aumentar seu poderia econômico e vender casas, na verdade construir um novo bairro ao estilo Neo-colonial, com casa iguais, sem muros e com todas as ruas arborizadas , a intenção da companhia era criar uma cidade estilo inglês , uma “cidade jardim”, quando as obras ficaram prontas, apelidaram o novo bairro de “ princesinha do subúrbio”.

Essa companhia se chamava Kosmos do proprietário Guilherme Guinle, o mesmo da família Guinle, família tão influente no Brasil no começo do século. Essa companhia adquiriu terras nos anos 20 e agilizou a construção desse novo bairro, a Vila Guanabara. Muitos consideram a CIA uma grande empresa e que graças a ela, bairros como Bráz de Pina (Vila Guanabara) e Vila Kosmos conseguiram se desenvolver mais rápido e assim povoar a localidade.

Abrindo uma obs: Guilherme Guinle, fundador do Banco Boavista e Companhia Kosmos. A Construtora nasceu no RJ em 1882 e sua família operava o Porto de Santos e o Copacabana Palace. Devoto de Santa Cecília mandou construir a Igreja idêntica à original na Suíça, além do Hospital Gafree Guinle. Participou do Governo Vargas na construção da Companhia Siderúrgica Nacional ,inclusive sendo Presidente da CSN. Sua coleção de moedas e medalhas da Época das Cruzadas e europeias, além de barras de ouro do Brasil Colonial faz parte do acervo do Museu Histórico Nacional. Fez história como empresário e benemérito nacional.

Quando ela comprou as terras, a fazenda estava repartida em vários lotes e seus donos pertenciam da família dos Gamas, Enes e Lobos (Lobo Junior).

A Cia investiu pesado na construção, contratou todo seu corpo técnico da Europa, eles ficaram encarregados dos projetos e execução da obra, todos os novos quarteirões foram projetados para abrigar bosques de eucalipto, ornamentando as ruas com ipês, sapucaias e flamboyants.
O bairro era tão lindo, perfeito que o periódico “ A Noite” comparou Bráz de Pina ao Leblon e Ipanema.

No ano de 1929, era inaugurada em estilo renascentista romana, a igreja de Santa Cecília, mais isso é um assunto para o nosso próximo tópico sobre o bairro, vamos lá?
Os Pontos turísticos e por que não Históricos!

Escola São Paulo
Prédio construído no final dos anos 30, início dos 40, não tem muitos registros sobre o colégio, requer uma pesquisa mais aprofundada, porém achei duas coisas bem interessantes pesquisando nos jornais antigos.
“Jornal dos Sports”, Quinta Feira, 28/06/1979: por ordem do órgão responsável pela educação a escola é fechada, pois apresentava péssimo estado de conservação e estrutura.
Periódico “A Democracia” 17/03/1981- Atrasos nas obras de recuperação obrigou a transferência de vários alunos para outras unidades.

Colégio Nossa Senhora das Dores
Colégio pertence a igreja católica, tradicional da região , foi fundado em 1953 e sempre participou de desfiles pela comunidade. A ideia de colocar um colégio desse porte no bairro foi do Cardeal Leme.

Casarão de Bráz de Pina (ou casa mal assombrada)
Segundo dizem foi construído durante os anos 1920, por um alemão que morava nas Laranjeiras e, apaixonado pelos ares suburbanos e quase rurais, resolveu construir uma residência na parte alta do novo Bairro-Jardim.
Já as fontes oficiais apontam com primeiro proprietário o Senhor Ruy Campista, grande fazendeiro e exportador de café da antiga república do café com leite. Alguns anos depois, a casa foi vendida para Othon Silva e Souza, dono do colégio Pedro I(depois Máximus e agora CEI), que al adquirir o imóvel tornou o local referência social, com grandes festas frequentadas pela elite carioca e sempre noticiada nos veículos responsáveis pelas fofocas. Nas décadas de 50 e 60, era constante o casarão aparecer nos jornais.
No meio dos anos 60, o senhor Othon vendeu a casa para Mario Lessa, grande empresário. Realizou obras na casa, aonde veio mudar janelas e as telhas, modificando um pouco o estilo inglês da construção. Ele mandou construir um elevador no meio da casa para sua esposa Noemia, que sofria do coração, porém, a obra não foi finalizada pois ela veio a falecer .
O atual dono é um senhor chamado Nildo que comprou a casa para ele e a família, mais com a crescente onda de violência ele acabou desistindo e colocando a casa a venda.

Cine teatro Bráz de Pina
Inaugurado em 30/11/1937 o cine Teatro Brás de Pina tinha capacidade para 1100 lugares em 1937 e 800 lugares em 1945, era propriedade de: Cinemas Lux S.A., e encerrou as atividades em janeiro de 1967. Após o fechamento funcionou no local um supermercado e atualmente uma Igreja Evangélica. Fonte: livro Palácios e poeiras, fotos: arquivo pessoal.

Tupy de Bráz de Pina
A escola de samba tradicional do bairro foi fundada no dia 25 de março de 1948, recebeu esse nome para homenagear os primeiros habitantes do bairro, com cores azul e branco em homenagem a sua escola madrinha, a Portela. Antes da Marquês da Sapucaí, as escolas de samba desfilavam sua beleza exuberante  na praça onze e não foi diferente com a tupi que estreou na série 2 em 1956.
A escola surgiu de um bloco carnavalesco e um time de futebol e nos seus primeiros anos desfilou apenas pelo bairro.
Como escola madrinha, a Portela teve atuação importante nos primeiros anos, ajudando com tudo que poderá ajudar a pequena escola, tanto que um dos “cabeças”da Portela, Elton Medeiros foi um dos fundadores do Tupy e ele sempre estava participando na escola de Bráz de Pina e levando alguns artistas de renome do samba para a velha quadra. Outra figura figura importante da escola foi o Zé Keti, que fez muito pela escola.
Sua antiga quadra ficava em frente ao Paque Ary Barroso, em baixo do viaduto da Penha, onde hoje apenas encontramos um muro com lembrança que ali teve uma quadra. Segundo alguns periódicos existiu uma quadra ou a sede administrativa na Rua Gaiba 133.
A escola de samba sempre participava de desfiles pelos bairros, festas dentro do Olaria F.C, na “princesinha do subúrbio”, a praia de Ramos, pelas ruas do bairro, a escola sempre esteve presente na vida e no cotidiano das pessoas.
Além da Praça Onze, o Tupy desfilou na Rio Branco, intendente Magalhães e Marquês da Sapucaí .
A escola teve suas atividades encerradas em 1997 voltando apenas em 2015, teve essa interrupção em sua história devido ao grande problema da cidade: a violência. NA época, a quadra ficava entre duas favelas, a Guaporé e o Morro da caixa d’ÁGUA, duas comunidades de facções rivais, em época de festividades na quadra, o povo da Guaporé não podia frequentar a quadra, então os anos foram se passando e a escola perdendo força até fechar de vez em 1997.

Igreja Santa Cecília e Brazão do Bairro
Brasão de Brás de Pina com representação da Igreja Matriz da Paróquia de Santa Cecilia, foi construída pela Cia imobiliária Kosmos, que implantou o loteamento da Vila Guanabara,.
A Igreja de Santa Cecilia foi inaugurada em 08 de dezembro de 1929, tendo sido fundada na véspera a Paroquia de Santa Cecilia de Brás de Pina.Os lampiões a óleo de baleia, representam a luz que iluminava o Rio de Janeiro e era abastecida pelo industrial, fazendeiro e senhor de terras Antônio Brás de Pina, que havia construído uma igreja para N. S. da Conceição, que foi Benta em procissão em 12.11.1742 registro do livro Memórias Históricas do Monsenhor Pizarro, tomo III, pagina 13. Localizada atrás do Engenho de Braz de Pina, junto o Porto de Braz de Pina, junto o Rio Irajá, na elevação do loteamento de 22.12.1932, da Vila Guanabara, PA-2048.

Cinema Santa Cecília  

Funcionou de 1937 a 1967 na Rua Itabira 87 (depois 123). Começou com 800 lugares e, na década de 60 chegou a ter 1363 lugares. A empresa exibidora era a Domingos Vassalo Caruso (até 1951) e depois a Cinemas Unidos S.A.